19 junho 2017

O conhecimento ao serviço do desenvolvimento económico e social

Já está disponível o texto da autoria de Flamínia Ramos e Margarida Chagas Lopes o qual se integra no projecto Economia e Sociedade - Pensar o Futuro que tem vindo a ser desenvolvido no âmbito do GES.

As autoras analisam a crise do velho paradigma confrontando-o com as condições em que, presentemente, o conhecimento se produz e difunde.

Nas suas palavras: Facilmente transferível, cada vez mais transacionável através dos bens e serviços em que se incorpora e extremamente apetecido pelo grande negócio internacional como principal instrumento da competitividade, o conhecimento determina as condições de produção, transferência e apreensão do valor e riqueza nesta época em que vivemos.
(…)
O conhecimento é um instrumento de poder. 
 
No texto, merece particular atenção a produção e a difusão do conhecimento em Portugal, o funcionamento das suas instituições e o actual contexto político, designadamente os objectivos constantes do programa de Governo, as condicionantes institucionais e outras e as lacunas a superar com vista à sustentabilidade de um sistema de produção científica ao serviço do desenvolvimento económico e social.

O texto na íntegra pode ser encontrado aqui

16 junho 2017

Boas notícias, sim. Mas é preciso ir mais além!

Há que saudar o veredicto das instâncias comunitárias, primeiro da Comissão e, hoje, do Conselho de ministros das Finanças, de isentar Portugal do Procedimento por défice excessivo e assim libertar Portugal de um conjunto de constrangimentos decorrentes do Pacto de estabilidade e crescimento e seus impactos que perduram há oito anos, com os efeitos negativos conhecidos; entre outros, nas notações das Agências de rating que, como é sabido, têm influência na ponderação do valor dos activos financeiros transaccionáveis e nas taxas de juro efectivas no acesso ao crédito, tanto por parte do Estado como pelo sector privado.

Apreciemos as boas notícias, mas não nos deixemos cair na ilusão de que o objectivo está definitivamente alcançado, não cedamos à tentação da inércia ou, em alternativa, de dar ouvidos às melodias encantatórias de prosseguir com “reformas”, que soam diversamente e até de modo antitético aos que as defendem como panaceia, veículo de desvalorização salarial, enfraquecimento do estado social, desregulação dos mercados, etc.

O País precisa de continuar a aprofundar e consolidar o rigor nas contas públicas, sem dúvida; mas, carece, sobretudo, de ser capaz de desenhar uma estratégia de modernização e de desenvolvimento que vá ao encontro das pessoas e das suas necessidades e aspirações, tendo em conta os estratos menos favorecidos e um objectivo prioritário de erradicação da pobreza; que promova a excelência da educação das gerações mais jovens bem como a melhor qualificação da população adulta; que perspective e antecipe os efeitos da revolução digital em curso e assegure uma transição justa para uma economia baseada no conhecimento, eficiente e competitiva; que incentive o investimento público e privado na provisão de bens de interesse geral; que promova a saúde da população; que dignifique o trabalho e salvaguarde o direito ao emprego; que corrija as grandes assimetrias territoriais e as desigualdades na repartição do rendimento actualmente existentes e trave a concentração da riqueza improdutiva ou especulativa; que incentive a cultura, o conhecimento, a participação cívica, a solidariedade e a coesão social.

O País precisa de uma Administração Pública dignificada, qualificada, motivada por uma ética de bem comum, sujeita a regras claras de transparência, responsabilização e prestação de contas que previnam a corrupção e o conluio político-partidário.

O País precisa de acreditar nos seus próprios recursos e num desígnio comum que a todos contemple equitativamente e dê esperança no futuro.

14 junho 2017

Mundo Digital do Trabalho – Indústria 4.0

Há iniciativas de grande alcance que, todavia, escapam à visibilidade dos media. É o caso de um seminário internacional promovido pela LOC-MTC e realizado em Mora, no Alentejo, nos dias 8-10 Junho.

É função das redes sociais preencher estes vazios de informação. Com tal pressuposto queria chamar a atenção para esta iniciativa que reuniu dirigentes de vários movimentos de trabalhadores cristãos, vindos de vários países europeus, designadamente, Espanha, França, Alemanha e, claro está, Portugal, a quem coube a iniciativa do seminário e a sua organização.

É muito positivo - e tarefa urgente - que responsáveis de organizações de trabalhadores se debrucem sobre o futuro do trabalho, conheçam os desafios que a economia e a sociedade digital em marcha em contexto de globalização e financeirização vão trazer ao mundo do trabalho e procurem, em conjunto, traçar rumos que preservem objectivos de trabalho digno, desenvolvimento do emprego e distribuição do rendimento na sociedade no Mundo Digital do Trabalho – Indústria 4.0.
 
Esta foi a temática principal do referido Seminário que contou com a presença do Arcebispo de Évora, José Alves e do Presidente do Município e teve o apoio do EZA – Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores.

Do comunicado final destaco algumas passagens.

O trabalho é um dom e um projeto de humanização que tem a ver com a construção da sociedade, é imprescindível para a realização humana e não apenas uma fonte de remuneração. O futuro vai depender da nossa atenção à realidade, do acompanhamento que fizermos aos trabalhadores, dos valores e dos critérios de vida que motivam o nosso agir, sendo que temos de fazer frente ao individualismo, construindo espaços de proximidade, com cristãos ou não, de modo a criar alternativas e propostas credíveis no sentido do trabalho digno, para uma sociedade digna.

O trabalho é o centro de cada pacto social, não é o meio para poder consumir. Entre o trabalho e o consumo há muitos aspetos, todos importantes e bonitos, que se chamam: dignidade, respeito, honra, liberdade, direitos, direitos de todos.
 
Mereceram debate específico as possíveis implicações que o Mundo Digital do Trabalho possa vir a ter para a Contratação Colectiva. A este propósito, lê-se no Comunicado final o seguinte:

No que respeita à Contratação Colectiva, o maior risco que estamos a correr é a perca da relação coletiva, o que se pode definir em três pontos:
1. Como entender os vínculos laborais num tempo de precariedade e em que os trabalhadores ficam reduzidos a prestadores de serviços?
2. O Impacto nas condições de trabalho e a perspectiva de maiores desigualdades, fruto da polarização do trabalho em que alguns, poucos, são altamente qualificados e remunerados e a grande maioria fica por salários baixos e é facilmente substituível.
3. Como dar sustentabilidade à Segurança Social e qual a sua missão no futuro?
 
Baseados nas experiências recolhidas nos seus países de origem, os participantes no Seminário quiseram dar ênfase também às seguintes preocupações também reflectidas no Comunicado final: 

(…) sem colocarmos em causa o modelo social e económico vigente, poderemos amaciar temporariamente um ou outro efeito da crise, mas logo ela se manifestará de novo, porque o modelo económico vigente é suicidário, mata.

(…) foi referida a necessidade de organizarmos a solidariedade e fomentarmos o diálogo social com as pessoas que conhecemos, os colegas de trabalho, os familiares, como fermento de um mundo novo e como afirmação de que outra realidade, diferente da atual, é possível.

(…) O futuro do trabalho não vai depender tanto dos avanços tecnológicos mas, sobretudo, do modo como o encararmos e dos objectivos que prosseguirmos. Com a Revolução industrial 4.0 em andamento, o desafio do emprego para todos continua em cima da mesa. E o pleno emprego tem mais a ver com a repartição da riqueza do que com os avanços tecnológicos. O trabalho é a melhor forma de repartir a riqueza, mas outras formas se podem promover e incentivar, como o caminho para a redução dos tempos laborais sem perca de remuneração, tendo em vista que muitos outros tenham trabalho, definir um salário mínimo para os precários, promover a educação para o bem comum e, como consumidores, apostar nos produtos locais, sempre que possível.

11 junho 2017

A nossa insegurança. Parece que . . . , mas é o petróleo!

O mundo global, da internet, das viagens, da instantaneidade e das novas tecnologias, envolveu-nos num mundo que antes pensávamos conhecer e dominar, mas que nos começou a mostrar que ainda tínhamos muito para descobrir. A própria globalização tornou-se um agente ativo de transformação, levando a que características de territórios, de povos e de pessoas, que até aí considerávamos como estáveis, começassem a mudar.
Os atentados de Londres
Tudo isto introduziu no nosso modo de viver fatores de insegurança que, antes, só eram possíveis, em larga escala, por ocasião de guerras e invasões de guerreiros vindos de outras terras e outros mundos. Hoje, sentimo-nos inseguros na nossa vida do dia a dia, o que não pode deixar de ter consequências sobre a teia de relações que constituem suporte do nosso ser e do nosso estar.
Sussurramos nos nossos encontros que “isto não está a correr bem e qualquer dia . . . “. E porquê? Porque muito dos comportamentos, de responsáveis políticos mundiais deixaram de estar dentro do horizonte de previsibilidade que até aqui possuíamos. Refiro-me, em particular, às trumpalhadas do Sr. que ocupa a Casa Branca e aos atentados terroristas reivindicados pelo Estado Islâmico.
Apesar de eu considerar que as trumpalhadas contêm gérmenes geradores de insegurança, a médio e longo prazo, tão mortíferos como os atentados terroristas (embora não pareçam), é destes que quero começar por falar, sem esquecer que isto anda tudo ligado. A reflexão que aqui quero trazer, vem na sequência dos atentados verificados em Londres no fim de semana passada.
Nos dias seguintes, foi possível ver reproduzidos, nos media, testemunhos de pessoas que concluíam com o desabafo: "Estes cobardes não vão mudar a nossa forma de vida". Já por ocasião de outros atentados voluntarismos com idêntico conteúdo tinham aparecido. Fiquei a pensar!
É verdade que um dos objetivos dos terroristas é destruir a nossa tranquilidade e o nosso modo de vida. A primeira reação, a mais imediata é dizer-lhes que não alcançarão aquilo que pretendem, que continuaremos a portar-nos como dantes, mostrando-lhes, assim, que não nos intimidaremos. Mas será que esta postura tem racionalidade e eficácia? Estou convencido de que não.
O Estado Islâmico
Creio que é bom que compreendamos algumas características do Estado Islâmico, que reivindica a responsabilidade da maioria dos atentados. É-nos transmitida, com frequência, a imagem de que o Estado Islâmico é suportado por jovens fundamentalistas, disponíveis para morrer, com vista a que os estragos produzidos pelas suas mortes destruam o reino e o modo de vida dos infiéis, que somos nós. Só que o Estado Islâmico, promovendo isso, é muito mais que isso.
Importa não esquecer que o mundo muçulmano possui duas principais correntes religiosas, a dos sunitas e a dos xiitas, que se tratam mutuamente, como traidores e infiéis, sendo que os sunitas representam à volta de 90% do total dos muçulmanos. Recordemos ainda que xiitas eram são tradicionalmente considerados como mais fundamentalistas (interpretação literal do Corão). No entanto, também, no âmbito dos sunitas se desenvolveram correntes fundamentalistas, de que é expressão mais significativa a corrente whabbista, nascida e desenvolvida na Arábia Saudita e que, a partir de determinada altura, estabeleceu alianças de governo com a Casa de Saud.
Foi, no seio da corrente whabbista que nasceu o Al-Qaeda e, posteriormente, os outros movimentos terroristas, que deram origem ao Estado Islâmico. Frequentemente se invoca que o Al-Qaeda cresceu com o apoio dos EUA, o que é justificado pelo fato de ter sido por essa via que quiseram eliminar os movimentos demasiado esquerdistas que começavam a aparecer nos países árabes, que poderiam pôr em causa o seu controle sobre o petróleo no Médio Oriente. Só que, aqui, como em muitas outras circunstâncias, os EUA tornaram-se aprendizes de feiticeiros e os que foram criados como aliados, transformaram-se nos seus principais inimigos, não só dos EUA, mas, também, de todo o mundo ocidental.
Assim se compreende porque é que, com frequência, se imputa à Arábia Saudita a responsabilidade do financiamento dos movimentos terroristas, embora a atual crise com a Catar (corte de relações diplomáticas) possa revelar outros contornos. O Catar poderá não estar inocente na questão do financiamento dos terroristas, mas o seu crime principal foi, agora, o de começar a gizar alianças com Irão, postura que os EUA não podem tolerar.
A política dos EUA no Médio Oriente (e das outras potências ocidentais que são dela cúmplices) tem como fundamento o controle das principais reservas mundiais de petróleo. Pouco lhes importa que sejam, precisamente, o Irão e o Iraque, países de maioria xiita, os países com estruturas governamentais e de comportamento mais ocidentalizadas. O seu pecado é o de aspirarem a controlar o seu próprio petróleo. É a esta luz que tem de se compreender o que se passou no Iraque e na Líbia e, agora, também, com o Irão, apesar de todos os passos sensatos anteriormente dados pelo Presidente Obama.
Os mártires e as 72 virgens
Mas voltemos à questão da não mudança do nosso modo de vida. Os “rapazinhos“ que se têm deixado imolar através dos atentados são, apenas carne para canhão de interesses promovidos pelo fundamentalismo sunita, que tem poder e interesses que vão muito para além dos explicitados pelos “rapazinhos”. O papel destes é o de criarem instabilidade nos países ocidentais e, por essa via, permitirem que os fundamentalistas aspirem a controlar os seus recursos.
O comportamento dos terroristas, apesar dos grandes meios mobilizados para os combater, é em grande medida imbatível. A estes terroristas meteu-se-lhes ou meteram-lhes na cabeça que a vitória do Corão só pode ser obtida com a destruição do mundo ocidental, de que os atentados terroristas são uma via privilegiada. Todos os que neles morreram serão recebidos no Céu como mártires e, além disso,  para seu belo prazer, terão à sua espera 72 virgens.
Ora, toda a civilização ocidental foi estruturada e desenvolvida a partir do princípio base de que todo o ser humano tem como objetivo último a preservação da sua vida. O seu comportamento em todos os atos tem isso como objetivo, o que constitui condicionante do seu comportamento. As sociedades ocidentais, tal como as conhecemos, ficam totalmente vulneráveis quando surgem no seu seio indivíduos para quem aquela condicionante não existe. Eles não querem, apenas, fazer atentados; eles querem fazer atentados e, através deles, morrerem, para serem mártires.
Nestas circunstâncias, pensar que “não mudaremos o nosso modo de vida” é um ato de coragem é, antes, um propósito de irresponsabilidade, porque não valoriza adequadamente o comportamento dos que realizam os atentados, que podem vir de todo o lado e para os realizar usar instrumentos, que podem ir dos mais simples aos mais sofisticados.
O petróleo
E tudo porquê?
É o petróleo Senhores! É o petróleo.
 
E, nesta teia de interesses, onde anda o respeito pela dignidade da pessoa humana?

06 junho 2017

Salário Mínimo e Salário Médio: o que pensar das respectivas evoluções?

A comunicação social tem vindo a publicitar informação sobre o Salário Mínimo Nacional, reportada a Março de 2017.

O nível salarial mínimo fixado para 2017 é da ordem dos 557 euros mensais, estimando-se que atinja cerca de 730 mil trabalhadores, ou seja, cerca de 22,9% dos trabalhadores a tempo completo. Em Abril de 2005 e de 2010, a correspondente percentagem era de 4,8% e de 9,4%, respectivamente, o que aponta para uma subida muito rápida do peso ocupado pelo Salário Mínimo no mercado de trabalho português.  

De salientar que o nível salarial mínimo em Portugal é o mais baixo da Europa Ocidental, situando-se mesmo num patamar inferior ao de alguns países da Europa de Leste, quando calculado em paridades de poder de compra, ou seja, depois de retirada a influência do custo de vida nestes países.

A importância crescente do Salário Mínimo, nos últimos anos, aliada ao facto de se ter também vindo a assistir ao aumento do seu peso relativo, por comparação com a mediana das remunerações nacionais, o que levou a um achatamento na distribuição salarial na sua aba inferior, desencadeou algumas tomadas de posição nos media.

Defendem alguns que as últimas revisões do Salário Mínimo têm sido exageradas, o que impossibilitará subidas significativas nos próximos anos, em resultado dos efeitos negativos esperados sobre a competitividade e o emprego. No que se refere ao impacto desfavorável no emprego, foram apresentados alguns estudos, designadamente da OCDE e da Comissão Europeia, que chamam a atenção para os riscos associados à adopção de um aumento sem melhorias equivalentes na produtividade. A este propósito, importa porém recordar que a investigação, a nível internacional, sobre o impacto do Salário Mínimo sobre o emprego já tem muitos anos e está longe de ser consensual.

Sem entrar naquela controvérsia, desejamos antes focarmo-nos sobre o que está a acontecer quanto à evolução dos salários médios, bem como a sua comparação com a do Salário Mínimo. A observação dos elementos constantes dos Relatórios de Acompanhamento do Acordo sobre a Remuneração Mínima Mensal Garantida (RMMG) mostra que a evolução acumulada deste, entre 2010 e 2016 (11,6%), terá sido efectivamente superior à evolução conjugada da desvalorização nominal do cabaz de compras padrão definido pelo INE como Índice de preços no consumidor e do aumento da produtividade, no mesmo período. Pelo contrário, a remuneração dos trabalhadores decresceu neste horizonte, ao contrário do registado, tanto para a inflação como para a produtividade. A remuneração ter-se-ia reduzido, desta forma, em 2,3%, enquanto a produtividade subiu 1,6%, aumentando consequente a repartição funcional a favor do capital. Também a evolução dos salários negociados no quadro da contratação colectiva, em 2014 e 2015, foi significativamente inferior, “o que sustenta uma apreciação cautelosa dos impactos do aumento da RMMG, não parecendo esta influenciar a evolução média salarial, nem os salários actualizados na contratação colectiva” (www.portugal.gov.pt/media/23718907/20161219-mtsss-rmmg-pdf).


Podemos concluir que o facto da remuneração dos trabalhadores de baixos salários não ter acompanhado a evolução registada na média, permitiu que evitar uma desvalorização, a qual teria sido bem superior à que resultaria da tomada em conta da evolução da produtividade e do custo de vida. Sendo assim, apetece perguntar: é a evolução do Salário Mínimo que é alta ou é antes a dos salários médios que é baixa?  

01 junho 2017

Mas qual é a surpresa com a venda de armas à Arábia Saudita?

 
Na semana passada, antes de chegar à Europa para fazer a pregação que ouvimos, o Presidente Trump deambulou pelo Médio Oriente e, em particular, fez uma visita ao seu tradicional aliado, a Arábia Saudita. Aí, alto e bom som, foi solenemente anunciada a compra, pela Arábia Saudita aos EUA, de material militar no valor de cerca de 110 mil milhões dólares, ou seja, mais de metade do PIB português.
Sabe-se que, na região, a Arábia Saudita, é um aliado forte e tradicional dos EUA, mas desde há muito, que muitos têm vindo colocar interrogações sobre a razoabilidade desta aliança, dadas as características feudais do regime que o governa e a circunstância de a religião e correspondente projeção na gestão dos negócios públicos ser a de dominante sunita, inimiga da variante xiita seguida pelos aliados mais importantes do mundo ocidental. É, igualmente, conhecido que os principais movimentos sustentáculo do terrorismo internacional têm base sunita .
Uma das interrogações sobre a razoabilidade da aliança tem a ver com o fato de ser largamente assumido que a Arábia Saudita apoia, de forma direta ou indireta, aqueles movimentos. Mas se assim é, tem algum sentido estarem os EUA a fornecer armas a um país que apoia o terrorismo internacional, do ISIS, do Estado Islâmico, etc (há, mesmo, quem diga que parte das armas poderá ser transferida para aqueles movimentos)?
Creio que, do ponto de vista da atual administração, fará todo o sentido. Não é difícil de explicar. Para mostrar que a explicação é simples, terei de fazer uma pequena incursão sobre a questão do designado complexo militar industrial dos EUA. Tem-se vindo a escrever que o comportamento errático do presidente Trump faz dele uma espécie de pateta desorientado no circo dos grandes lóbis, que influenciam e atuam na economia dos EUA. Mais do que pateta, creio que a sua função tem vindo a afirmar-se, sobretudo, como marioneta nas mãos dos interesses presentes nesses lóbis.
Se há uma linha de união entre os interesses desses lóbis, ela é a de que as decisões tomadas e os compromissos assumidos pelas várias administrações, federais, ou não, apenas podem comprometer, o crescimento, o desenvolvimento, o progresso da economia dos EUA e dos americanos, a menos que sejam tomadas em seu benefício dos lóbis, ou por sua “encomenda”. Disso também está convencido o presidente, que tudo faz e fará para ajudar a desconstruir o que anteriores administrações, republicanas ou democratas, andaram a fazer ao longo de décadas, em prol do bem comum. É assim em relação a toda a regulação da indústria automóvel, da indústria do carvão, das emissões de carbono (Acordo de Paris), dos compromissos com a NATO, etc. A exigência de Trump de que todos os países da NATO contribuam anualmente com 2% do seu PIB para o orçamento da Organização (no caso português cerca de 3,7 mil milhões de euros), pode ser um financiamento relevante para a compra de armas aos EUA. E o que é que isto tem a ver com o negócio das armas?
Tem tudo. Um dos grandes lóbis presentes no funcionamento da sociedade americana é o do complexo militar e industrial (são conhecidos os alertas que sobre a sua existência maléfica fez o Presidente Eisenhower, um general prestigiado, que sabia do que falava). Este lóbi não tem como objetivo eliminar a administração, mas sim coloca-la ao seu serviço. Quanto mais armas vender e quanto maiores forem os progressos tecnológicos na indústria de armamento, maiores serão os lucros dos seus acionistas, mas também, dado o seu poder de arraste sobre o resto da economia, maiores serão os benefícios para a economia e cidadãos americanos (não esqueço que complexos militar industriais, embora de menor dimensão, também, existem no Reino Unido, em França, na Alemanha, na Itália, na Suécia, na Rússia, etc.).
É verdade que o verdadeiro teste da eficácia das armas se faz no campo de batalha e isso pode ser feito em todo o lado menos, evidentemente, nos EUA. Não surpreende, por isso, que os negociantes de armas sejam peritos em, aproveitando circunstancialismos locais, fazer aparecer combates, batalhas e guerras por esse mundo fora. Estas guerras servem, para escoar os stocks de armas acumuladas, testar novas armas e justificar que a indústria de armamento continue a crescer.
Quando tudo já está destruído, pode-se ir fazer nascer guerras em outros locais. Para além disso, nos territórios já destruídos, há toda uma economia e infraestruturas a construir e os que antes trouxeram armas, descarregam, agora, buldózer, construtores civis, equipamentos, etc, etc. Uma única condição: a de que o território destruído seja suficientemente rico em recursos (petróleo, minério, água) que possam pagar a reconstrução ou, então, que a comunidade internacional se mobilize para encontrar as fontes de financiamento necessárias para esse efeito.
Voltemos ao nosso, anterior, tem tudo. É que se o que é preciso é vender armas, então não existe qualquer impedimento que elas sejam vendidas, simultaneamente, aos "nossos" aliados e aos seus inimigos. Acontece que os seus inimigos também são nossos aliados, i. e. dos EUA (vide os casos dos governos xiitas, da Líbia e do Iraque).
Quanto mais guerras, mais armas são vendidas e quanto mais armas vendidas maior riqueza e maior o orgulho para o Sr. Trump e para todos os que o utilizam como marionete.
Gostaria que o relato que acabo de fazer fosse apenas o de um pesadelo de uma noite mal dormida! Tenho dúvidas!

26 maio 2017

Reformas Sociais na Europa: serão necessárias e monitorizáveis?

O debate sobre a construção de um aparelho institucional novo, ou simplesmente o conhecimento da situação em matéria de coesão social na Europa, é um pré-requisito essencial para ter uma visão global sobre as reformas em curso a nível nacional, orientadas para uma melhor performance da inclusão social.
Foi recentemente publicado um relatório, que pretende responder a estas preocupações (www.bertelsmann-stiftung.de/eu/publications/publication/did/social-policy-in-the-eu-reform-barometer-2016), com base no lançamento de um inquérito que procura medir a necessidade de reformas, a respectiva quantidade e qualidade, relativamente a 55 objectivos políticos nos 28 Estados Membros, entre Julho de 2014 e Janeiro de 2016. As perguntas cobrem as seguintes cinco dimensões: prevenção da pobreza; equidade na educação; acesso ao mercado de trabalho; coesão social; não discriminação; e saúde.
O Barómetro das Reformas permite que cada Estado Membro seja avaliado para o total e relativamente a cada uma das dimensões, tendo-se mesmo construído um indicador único de performance das reformas.
Eis algumas das conclusões retiradas:
  • ·         As reformas na educação têm sido largamente negligenciadas, já que apenas 1/3 das reformas consideradas necessárias foram levadas a efeito. A aprendizagem ao longo da vida permanece muito baixa e a ligação entre sucesso escolar e origem sócio económica mantém-se forte. Os países mais bem-sucedidos foram Malta e Roménia. Relativamente ao primeiro, foram salientados os resultados obtidos com o Programa de Aprendizagem Alternativo, visando a redução do abandono escolar, a generalização do pré-escolar e o aumento dos cursos online e nocturnos.
  • ·         A integração de refugiados e de estrangeiros conheceu falhas significativas, pese embora o sentimento quanto à necessidade de os integrar socialmente, o qual é contudo mais fraco nos Estados Membros cuja adesão à U.E se processou após 2014.
  • ·         Apesar da redução das desigualdades se contar entre os maiores desafios da Europa, as performances são muito pobres. Particularmente preocupante é a estagnação observada nos salários.
  • ·         A inclusão social registou apenas scores significativamente positivos nos países do Leste Sul. O Reino Unido destaca-se por se situar em último lugar, em resultado das dimensões ligadas à equidade na educação e prevenção da pobreza. Relativamente aos países do Sul, os indicadores são fracos para a Espanha e a Grécia, sendo contudo melhores para a Itália, Portugal e Irlanda.
  • ·         A melhor reforma dos cuidados de saúde teve lugar na Finlândia, permanecendo a Dinamarca com o seu score anterior.


Estas conclusões merecem ser analisadas mais pormenorizadamente, sendo contudo importante sublinhar que o Barómetro das Reformas está mais focado na resposta governamental aos desafios colocados pela inclusão social e a sustentabilidade do Estado Social do que nos resultados obtidos.